Por que ser contra a Revolução?

Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da ordem. E por ordem entendemos, a paz de Cristo no Reino de Cristo. Ou seja, a Civilização Cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, anti-igualitária e anti-liberal.
Dr. Plínio Corrêa de Oliveira

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Merleau-Ponty e a Fenomenologia

A tradição filosófica ocidental pode ser grosseiramente dividida em duas grandes correntes: o realismo e o idealismo. Para os primeiros, a realidade do mundo é dada aos sentidos de maneira direta e através dos sentidos conhecemos o mundo. Para os segundos, a realidade do mundo é em última análise inacessível ao homem, pois os dados dos sentidos, antes de chegarem ao nível da consciência, são formatados pela estrutura da mente humana. Ainda que radicalmente distintas, ambas posições pressupõem a dualidade da consciência (ou alma ou mente, como se queira) e do mundo.

A fenomenologia, surgida em fins do século XIX, propõem-se a superar a dicotomia consciência-mundo. A fenomenologia não é uma epistemologia. Ela não é exatamente uma alternativa às duas posições “clássicas”. A fenomenologia é, particularmente para Merleau-Ponty, uma postura metodológica. A característica principal dessa nova concepção é entender a dualidade consciência-mundo como um continuum, sendo a percepção um dos elos dessa corrente. A percepção é o meio, o canal pelo qual os sensíveis chegam à consciência. A percepção não é um ato pois os sentidos recebem passivamente os dados do mundo, que justamente por isso se chamam “dados”; o mundo é dado pacificamente à consciência. A percepção tampouco é uma ciência, pois ela é pré-reflexiva e não-deliberada; este é provavelmente o aspecto mais distintivo da fenomenologia. A percepção é pré-ciência. A percepção é o que sentimos antes de saber o que sentimos; é o dado proveniente do mundo antes de ser trabalhado pela consciência. Por isso, todos os atos da consciência ocorrem sobre o pano de fundo da percepção.

Merleau-Ponty não pretende que a metodologia fenomenológica venha a substituir as outras formas de conhecimento do mundo, notadamente a ciência natural matematizada. Merleau-Ponty é lúcido o bastante para não negar os progressos das ciências naturais no conhecimento do mundo e suas aplicações práticas. Para ele, a fenomenologia é como a arte. Aliás, uma das dificuldades em ler este autor é justamente seu afastamento do didatismo racional. Assim, seus livros, longe de serem uma exposição ordenada de suas ideias, parecem mais obras literárias, onde o autor goza de certa licença poética.

O que Merleau-Ponty pretende é resgatar o espanto ingênuo, a epoché, que suspende todo o juízo consciente, e apenas sente-se no mundo. Contudo, a fenomenologia eleva a subjetividade a níveis bem mais elevados do que os imaginados por Protágoras e Kant. Já não se trata mais de uma questão de ponto de vista diferente ou de uma intersubjetividade comum a todos os homens, com a fenomenologia a própria representação do mundo torna-se subjetiva, pessoal, individualizada.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

De perguntas e respostas

Há uma lógica subjacente em todo o diálogo humano que nem sempre é captada pela reprodução literal das palavras. Veja-se o seguinte diálogo fictício entre um entrevistador e o seu entrevistado.

entrevistador A: Muitas pessoas nas Filipinas dizem que o crescimento demográfico é responsável pela pobreza. O que você acha?

entrevistado B: Os especialistas dizem que é necessário três filhos por mulher para manter a população estável. Na Itália, o baixo crescimento demográfico é causa de vários problemas, como as aposentadorias futuras. Por isso, defendemos a paternidade responsável.

Numa primeira análise, não há nada de problemático na resposta de B. Ela é perfeitamente aceitável, pois os dados que cita são factualmente corretos. No entanto, sua resposta é péssima por um motivo muito simples. Ao evitar responder diretamente à pergunta que lhe foi formulada, o entrevistado B aceitou, ainda que tacitamente, a premissa do entrevistador, qual seja: o crescimento demográfico é responsável pela pobreza.

No entanto, compreendo bem que quem não foi capaz de ver um elefante em Outubro, não será agora em janeiro capaz de ver um coelho. Quem não vê o maior também não vê o menor. Contudo, ambos, elefante e coelho, saíram da mesma cartola.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Nous sommes Charles Martel

Que os franceses queiram ser Charlie Hebdo, é uma pena. Num país como a França, tão rico de boas tradições e com tantos homens de valor, dá dó ver o seu povo ludibriado de tal maneira a ponto de identificar-se com uns coitados anarco-humoristas. Quanto a mim, no momento atual, se tivesse que escolher um personagem francês, diria: Je suis Charles Martel (688-741), vencedor dos mouros em Poitiers/Tours (732).

Espero que a França arrependa-se do mau caminho e que um dia os franceses possam dizer com orgulho: Nous sommes Charles Martel!
Carlos Martel, dux francorum, vence os mouros, evitando que os francos, e os demais europeus, tivessem o mesmo triste destino dos godos da Hespanha sob o jugo do corão.


sábado, 17 de janeiro de 2015

Eu NÃO sou Charlie. Então, o que sou?

Agência Boa Imprensa – ABIM

Alejandro Ezcurra Naón

ATENTADOS TERRORISTAS NA FRANÇA

Agencia Boa ImprensaO horrendo massacre perpetrado no dia 7 de janeiro por extremistas islâmicos [foto ao lado] contra funcionários do semanário satírico “Charlie Hebdo”, somado a dois outros atentados terroristas, causou enorme comoção e justificado repúdio mundial, a ponto de ser chamado de “11 de setembro francês”.
Rapidamente, com a agilidade e a concisão próprias do espírito francês, o jornalista Joachim Rancin sintetizou esse rechaço com três palavras: “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie). E os franceses foram convocados a se identificarem com essa frase, exibindo-a durante as manifestações programadas em todo o país nos dias 10 e 11 de janeiro, para expressar assim seu repúdio ao crime e sua solidariedade com as vítimas.
No entanto, a frase é restritiva, porque se refere apenas a um aspecto do sucedido, além de induzir a um equívoco que oculta uma arapuca ideológica.
De fato a tragédia não se cingiu a um atentado contra “Charlie Hebdo”; foi uma sequência de três atos terroristas consecutivos, nos quais, além de dez membros do staff da revista, faleceram três policiais e quatro civis, clientes de um local de comida judaica. Portanto, a frase Eu sou Charlie tem algo de excludente — hoje se diria “discriminatório” — em relação às outras vítimas.
Ademais, há nela um equívoco, porque sugere que o repúdio a esses condenáveis atentados e a compaixão pelas suas 17 vítimas implica forçosamente identificar-se com “Charlie Hebdo”, e portanto com a linha editorial da revista. O que para um católico é simplesmente inaceitável.
Por quê? Porque em um de seus traços essenciais, “Charlie Hebdo” é afim ao extremismo islâmico.
Explicamo-nos. Os jihadistas praticam uma forma de barbárie cruenta, assassina, selvagem, para impor um estado de coisas conforme ao seu fanatismo religioso. “Charlie Hebdo” também pratica uma forma de barbárie, incruenta, mas que não deixa de ser igualmente bárbara e fanática. Consiste em pisotear todas as regras de convivência civilizada, para entregar-se a ofender, agredir, ultrajar de modo desenfreado e gratuito.
Sob o pretexto de ser uma revista satírica, seus redatores se escudam na “liberdade de expressão” para se entregarem a esse puro exercício de barbárie intelectual de inspiração ateia. É um aspecto da neobarbárie revolucionária e uma forma de estabelecer o que o Papa Bento XVI denominou “ditadura do relativismo”.
É impossível reproduzir aqui as caricaturas com as quais “Charlie Hebdo” insulta com grosseiras blasfêmias — que parecem vomitadas pelo inferno — a Igreja Católica, suas crenças e autoridades. Mas qualquer leitor que as tenha visto pode dar fé do que dizemos.
De passagem, recordemos que o pecado deliberado de blasfêmia é sempre grave, por consistir em injúria direta a Deus, aos santos e às coisas sagradas, como também por sua malícia intrínseca, ou seja, pela carga de ódio a Deus que contém.
O trato civilizado, não só no Ocidente, mas em toda civilização digna desse nome — de que o Japão, a Pérsia, a China, entre outros, deram esplêndidos exemplos —, sempre se baseou em um senso claro da dignidade humana e do respeito devido aos nossos semelhantes. Um respeito matizado, que se deve a todos, mas em medida proporcionada à dignidade de cada um.
Na civilização cristã, esse senso de dignidade e respeito alcançou um auge, gerando formas excelentes de cortesia baseadas em duas virtudes: da justiça, que manda dar a cada um o que lhe corresponde, e da caridade, que pede dar mais aos mais necessitados.
Da prática dessas virtudes floresceram formas de excelência no trato social, as quais constituíram como que o selo distintivo da cristandade europeia, cuja recordação fez Talleyrand exclamar, depois das convulsões da Revolução Francesa: “Quem não conheceu o Antigo Regime não sabe o que é a doçura de viver”
Com efeito, dessa França que foi o “Reino Cristianíssimo” e o paradigma da delicadeza de trato e da mais refinada cortesia, surge agora essa criatura intelectual neobárbara, satírica, ateia e anarquista chamada “Charlie”, para se dedicar a demolir tudo o que é sagrado, respeitável, nobre, sério. Poderíamos exclamar com o profeta das Lamentações: “Quomodo obscuratum est aurum” – Como se obscureceu o ouro! (Jeremias, IV, 1).
yihadistas
Por isso, ao mesmo tempo que nos unimos às orações pelas almas dos membros da equipe de “Charlie Hebdo” e das demais vítimas da barbárie assassina islâmica, invocando para eles a piedade de Deus, repudiamos também a barbárie cultural revolucionária ostentada por aquele pasquim, e em consequência declaramos categoricamente: “Eu não sou Charlie”.
E então, o que somos? Simplesmente católicos que, diante do avanço da neobarbárie contemporânea sob suas múltiplas formas, afirmamos que esta só tem uma resposta: lutar para restaurar a verdadeira civilização, que é a civilização cristã.
O horrendo massacre perpetrado no dia 7 de janeiro por extremistas islâmicos [foto ao lado] contra funcionários do semanário satírico “Charlie Hebdo”, somado a dois outros atentados terroristas, causou enorme comoção e justificado repúdio mundial, a ponto de ser chamado de “11 de setembro francês”.
Rapidamente, com a agilidade e a concisão próprias do espírito francês, o jornalista Joachim Rancin sintetizou esse rechaço com três palavras: “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie). E os franceses foram convocados a se identificarem com essa frase, exibindo-a durante as manifestações programadas em todo o país nos dias 10 e 11 de janeiro, para expressar assim seu repúdio ao crime e sua solidariedade com as vítimas.
No entanto, a frase é restritiva, porque se refere apenas a um aspecto do sucedido, além de induzir a um equívoco que oculta uma arapuca ideológica.
De fato a tragédia não se cingiu a um atentado contra “Charlie Hebdo”; foi uma sequência de três atos terroristas consecutivos, nos quais, além de dez membros do staff da revista, faleceram três policiais e quatro civis, clientes de um local de comida judaica. Portanto, a frase Eu sou Charlie tem algo de excludente — hoje se diria “discriminatório” — em relação às outras vítimas.
Ademais, há nela um equívoco, porque sugere que o repúdio a esses condenáveis atentados e a compaixão pelas suas 17 vítimas implica forçosamente identificar-se com “Charlie Hebdo”, e portanto com a linha editorial da revista. O que para um católico é simplesmente inaceitável.
Por quê? Porque em um de seus traços essenciais, “Charlie Hebdo” é afim ao extremismo islâmico.
Explicamo-nos. Os jihadistas praticam uma forma de barbárie cruenta, assassina, selvagem, para impor um estado de coisas conforme ao seu fanatismo religioso. “Charlie Hebdo” também pratica uma forma de barbárie, incruenta, mas que não deixa de ser igualmente bárbara e fanática. Consiste em pisotear todas as regras de convivência civilizada, para entregar-se a ofender, agredir, ultrajar de modo desenfreado e gratuito.
Sob o pretexto de ser uma revista satírica, seus redatores se escudam na “liberdade de expressão” para se entregarem a esse puro exercício de barbárie intelectual de inspiração ateia. É um aspecto da neobarbárie revolucionária e uma forma de estabelecer o que o Papa Bento XVI denominou “ditadura do relativismo”.
É impossível reproduzir aqui as caricaturas com as quais “Charlie Hebdo” insulta com grosseiras blasfêmias — que parecem vomitadas pelo inferno — a Igreja Católica, suas crenças e autoridades. Mas qualquer leitor que as tenha visto pode dar fé do que dizemos.
De passagem, recordemos que o pecado deliberado de blasfêmia é sempre grave, por consistir em injúria direta a Deus, aos santos e às coisas sagradas, como também por sua malícia intrínseca, ou seja, pela carga de ódio a Deus que contém.
O trato civilizado, não só no Ocidente, mas em toda civilização digna desse nome — de que o Japão, a Pérsia, a China, entre outros, deram esplêndidos exemplos —, sempre se baseou em um senso claro da dignidade humana e do respeito devido aos nossos semelhantes. Um respeito matizado, que se deve a todos, mas em medida proporcionada à dignidade de cada um.
Na civilização cristã, esse senso de dignidade e respeito alcançou um auge, gerando formas excelentes de cortesia baseadas em duas virtudes: da justiça, que manda dar a cada um o que lhe corresponde, e da caridade, que pede dar mais aos mais necessitados.
Da prática dessas virtudes floresceram formas de excelência no trato social, as quais constituíram como que o selo distintivo da cristandade europeia, cuja recordação fez Talleyrand exclamar, depois das convulsões da Revolução Francesa: “Quem não conheceu o Antigo Regime não sabe o que é a doçura de viver”
Com efeito, dessa França que foi o “Reino Cristianíssimo” e o paradigma da delicadeza de trato e da mais refinada cortesia, surge agora essa criatura intelectual neobárbara, satírica, ateia e anarquista chamada “Charlie”, para se dedicar a demolir tudo o que é sagrado, respeitável, nobre, sério. Poderíamos exclamar com o profeta das Lamentações: “Quomodo obscuratum est aurum” – Como se obscureceu o ouro! (Jeremias, IV, 1).
yihadistas
Por isso, ao mesmo tempo que nos unimos às orações pelas almas dos membros da equipe de “Charlie Hebdo” e das demais vítimas da barbárie assassina islâmica, invocando para eles a piedade de Deus, repudiamos também a barbárie cultural revolucionária ostentada por aquele pasquim, e em consequência declaramos categoricamente: “Eu não sou Charlie”.
E então, o que somos? Simplesmente católicos que, diante do avanço da neobarbárie contemporânea sob suas múltiplas formas, afirmamos que esta só tem uma resposta: lutar para restaurar a verdadeira civilização, que é a civilização cristã.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

As "dualidades" do ensino: humanista x profissionalizante e confessional x laico

 Sistema dual de ensino refere-se comumente à co-existência de dois modelos educacionais a nível médio ou até mesmo superior-profissionalizante. O primeiro modelo é o tradicional, onde o ensino médio procura dar aos alunos uma formação sólida, de base humanista, mas ao mesmo tempo com conhecimentos razoáveis das teorias científicas atuais. Esse modelo visa preparar as futuras elites intelectuais que ingressarão nas universidades e formarão o corpo técnico e administrativo da nação. O segundo modelo é o do ensino profissionalizante. Tendo-se reconhecido a necessidade de mão-de-obra técnica especializada, surgiu nos anos 30 a necessidade de preparar-se o que pode ser chamado de "operários de elite", isto é, aqueles profissionais que, sem deixar de pertencer à classe trabalhadora, terão conhecimentos mais profundos e especializados a fim de atenderem a demanda de uma economia avançada. Para esse, o ensino médio, e às vezes, até o superior, tem um caráter profissionalizante que visa preparar o aluno com o cabedal técnico para manusear equipamentos e tecnologias avançadas. Note-se que o sistema dual de ensino é resultado da tecnificação da sociedade e existe tanto em países capitalistas como socialistas. É característico de países de capitalismo tardio, como o Brasil, haver um certo desdém pela educação profissional, coisa que não ocorre nas economias avançadas.
 
Tradicionalmente, a educação era tarefa das famílias e todo o ensino era o que se chamaria hoje particular ou confessional. A partir do século XIX, começaram a surgir estabelecimentos de ensino públicos que no século seguinte atingiram as grandes massas da população. Isso gerou um embate entre duas visões distintas da educação. Para os escolanovistas, a educação deveria pública, gratuita, laica e obrigatória para todos. Já para os adeptos do ensino confessional, o ensino, por ser um dever primariamente da família e não do estado, poderá ser, para os que assim o desejarem, ligado a uma confissão religiosa particular. Esse problema é particularmente sentido nas nações católicas, como o Brasil, pois a Igreja tradicionalmente dispôs de uma considerável rede de escolas e universidades. Por trás desse embate, há o choque entre aqueles que querem que o Estado seja o motor de transformações sociais e vêm na educação a oportunidade de construir um "homem novo" e aqueles que preferem que a sociedade seja livre da interferência do Estado para construir-se e não ser construída.
 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Uma boa notícia (até que enfim): São José Vaz

Num Janeiro repleto de más notícias e abafado por um calor insuportável (possivelmente, 2015 será o ano mais seco do Sul de Minas), é com grande alegria que li agora está boa notícia. S.S. Francisco canonizou o missionário indo-português São José Vaz (1651-1711), evangelizador no Oriente. Notícia aqui. Pelo que li da biografia desse recém canonizado, trata-se de um santo à moda antiga, daqueles que convertiam povos bárbaros e reis pagãos. Numa época como a nossa, seu exemplo e intercessão são mais do que necessários.

São José Vaz, rogai por nós