Por que ser contra a Revolução?

Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da ordem. E por ordem entendemos, a paz de Cristo no Reino de Cristo. Ou seja, a Civilização Cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, anti-igualitária e anti-liberal.
Dr. Plínio Corrêa de Oliveira

terça-feira, 28 de abril de 2015

Comunhão para os recasados

Os mais lúcidos já sabiam o que era óbvio. As disposições da generalidade do clero são amplamente favoráveis à comunhão dos recasados e um número não desprezível de padres e bispos e a favor de algum tipo de reconhecimento às uniões anti-naturais. Isso já vem de muitos anos, mas, por respeito ou por temor, eram mais ou menos abafadas enquanto havia em Roma um pontífice católico.
Com o Papa Francisco tudo mudou. Não é que o Papa Francisco seja ambíguo. Ele é claríssimo ainda que mais com gestos do que com palavras. Na Semana Santa, Sua Santidade lavou os pés e permitiu que fosse dada comunhão ao um travesti brasileiro, preso na Itália por prostituição. Na semana passada, o Arcebispo de Chicago, nomeado pelo Papa Francisco, durante uma missa solene e em frente às câmeras de TV, deu comunhão ao governador de seu estado, um não-católico. Esta semana, impulsionados pelos ventos que sopram de Roma, a CNBB, ou pelo menos suas recém-eleitas lideranças, decidiu-se aberta e oficialmente pela comunhão aos recasados e por maior abertura aos casais homoafetivos. Leia aqui.

A apostasia foi oficializada só não vê quem não quer.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A Mímese em Platão e Aristóteles

É difícil avaliar se há coincidência de conceitos a respeito da palavra mímese em Platão e Aristóteles pois este último não a conceitua e usa-a poucas vezes em suas obras que chegaram até nós. No entanto, as informações disponíveis indicam que Platão e Aristóteles compartilhavam o mesmo conceito de mímese, algo que poderíamos traduzir, ainda que impropriamente, por imitação, mímica, cópia, ou exemplo.

Não obstante a semelhança conceitual, a posição de cada sobre o valor da mímese é diametralmente oposta. Em virtude de sua Teoria das Ideias, onde a realidade verdadeira são as Ideias e não os objetos sensíveis, Platão tende a associar a mímese com a falsidade. Uma peça de teatro, onde evidentemente os atores atuam, isto é, fingem ser outras pessoas, é para Platão algo falso, forjado, mesmo que os atores sejam bons atores (aliás, particularmente nesse caso). Por isso, Platão prefere o discurso indireto, onde o ator-poeta narra uma história e não interpreta um papel. Por esse motivo, Platão também é bastante severo com a pintura, mera cópia (a pintura) de uma cópia (o objeto) de uma realidade (Ideia). Platão irá associar a mímese à arte do sofista, à arte de fazer passar por verdade aquilo que não é.

Possivelmente, a dureza da posição de Platão talvez seja devida ao contexto social em que viveu. Seu mestre e ídolo, Sócrates, quando vivo, havia sido ridicularizado em peças de teatro por sua excentricidade. Talvez a ojeriza de Platão à mímese seja uma vingança tardia.

Aristóteles, por outro lado, é o filósofo do meio-termo e do bom-senso. Aristóteles não segue a teoria das ideias de seu mestre Platão. A essência de uma coisa não se encontra num hipotético mundo das ideias localizado no além sobrenatural. A essência de uma coisa localiza-se nela mesma e pode ser abstraída pela inteligência. Isso significa que uma obra de arte não é mera cópia de uma cópia. Ela tem sua própria essência e há nela algo de original e criativo. Logo, não nada de errado com a mímese em si. Para o Estagirita, pelo contrário, a mímese pode até ser benéfica aos nos proporcionar prazer (ao ver uma obra de arte bonita), educação (ao copiarmos uma boa ação) e catarse de sentimentos ruins (ao assistirmos a uma tragédia).

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Platão e o Realismo Artístico

Alcamene, que não tinha nenhuma experiência de óptica e de geometria, havia feito uma estátua de Atena de grande beleza para aqueles que podiam vê-la de perto. Fídias, ao contrário, [...] estimando que a forma da estátua devia ser completamente modificada em razão da altura prevista em que seria colocada, alarga, por conseguinte, a abertura da boca, desloca a implantação do nariz, e todo o resto em proporção. Quando, em seguida, conduzem-se as duas estátuas a plena luz a fim de as comparar, Fídias se encontra em grande perigo de ser linchado pela multidão, até que as duas estátuas foram enfim erguidas, pois vê-se então se desfazer a doçura dos traços finos do modelo de Alcamene, enquanto que, pelo efeito da altura do local em que foram colocadas, apagam-se as disparidades e as chocantes deformações da obra de Fídias, o que fez com que Alcamene fosse ridicularizado e Fídias visto com ainda maior estima.” (Tzetzès, 1991, p. 78).

As diatribes de Platão contra a arte em geral são bastante conhecidas. Basicamente, autor da Teoria das Formas não reconhece o aspecto criativo e inovador da arte e não concede que a Beleza em si pode tomar parte numa obra de arte. Para este célebre ateniense, a arte é apenas uma imitação, uma cópia da cópia de uma Forma. Sua posição em relação à arte oscila entre a complacência, o pragmatismo e o repúdio total.

Uma vez que Platão considera que as verdadeiras realidades, as Formas, são apenas inteligíveis e que os objetos do mundo sensível que habitamos são cópias desses, caberia então à arte apenas reproduzir o mais fielmente possível o sensível. Disso resulta um extraordinário conservadorismo artístico que considera como falsidades inaceitáveis desenhos e pinturas onde haja perspectiva. Segundo o raciocínio de Platão, representar num plano (numa parede, p.e.) um objeto tridimensional é ludibriar as pessoas, querer passar o falso por verdadeiro. Não por acaso, numa época em que os artistas gregos introduziam a perspectiva e jogos de luz e sombra para dar profundidade a desenhos e pinturas, Platão fará elogio à arte egípcia, que não faz uso da perspectiva e, portanto, conforme Platão, seria menos enganadora. 

A anedota relatada em epígrafe ilustra bem a incoerência das posições radicais de Platão a respeito da arte. Alcamene e Fídias eram famosos escultores no período de ouro de Atenas, o século V, o século de Péricles. Platão, sendo uma geração mais novo, não os conheceu, mas certamente viu suas belas obras e ouviu muito falar neles pois foram contemporâneos de seu mestre Sócrates.

Alcamene produziu uma estátua de grande beleza, fiel às proporções que – imagina-se – uma deusa grega deva ter. Alcamene era capaz de reproduzir com precisão no mármore os traços que via em carne. Já Fídias, o maior dos escultores gregos, era, além de exímio artista, também um conhecedor de ótica e geometria. Antevendo a perspectiva com que sua estátua seria vista, este esculpiu-a de tal modo a ser bela quando vista dessa perspectiva, resultando, contudo, numa estátua disforme quando vista de perto. Ao serem alçadas para o alto ambas estátuas, naturalmente que a de Fídias sobressaiu-se enquanto a de Alcamene, ainda que mais realista, perdeu os finos detalhes que a tornavam tão bonita de perto.

Não sabemos a opinião de Platão sobre Fídias e Alcamene. Contudo, seu extremo conservadorismo artístico provavelmente o teria levado a aprovar a obra de Alcamene, o realista, e reprovar Fídias, o “enganador”. Isso é incoerente e um tanto irônico, pois Platão critica os artista por serem meros imitadores, por não terem verdadeira ciência. No entanto, incoerentemente, Platão deve ter sido extremamente crítico com artistas que, tal como Fídias, usavam conhecimentos “científicos” para tornar suas obras mais belas, ainda que menos reais. Obras de arte atuais, como o Cristo Redentor e a Estátua da Liberdade, obviamente desproporcionadas, seriam vistas por Platão como aberrações monstruosas.

Durante o chamado Século de Péricles, a cidade de Atenas, devido à afluência econômica, tornou-se o centro artístico do mundo e vivenciou uma revolução artística onde técnicas arcaicas de pintura, escultura etc. foram substituídas por outras mais refinadas. Sócrates, em sua luta contra os sofistas e suas aparências, acabou desenvolvendo também uma exagerada “neofobia” artística, vendo um paralelo entre a arte inovadora de Fídias e os sofismas de Protágoras. Que os gostos e os modos de Sócrates diferiam dos dos atenienses em geral é facilmente presumido, em vista de seu triste fim. Possivelmente, algo dessa “neofobia” passou para seu discípulo Platão que via na arte moderna de Atenas apenas o mau gosto daqueles que condenaram seu mestre.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O garoto propaganda


É óbvio que Sua Santidade não tem responsabilidade no fato de sua imagem ser usada pelos ativistas LBGTXYZ. Contudo, tudo tem seu preço. Pode parecer que não custa nada ser agradável e ameno. Mas ser agradável, acenar e dizer amenidades a quem não merece também custam caro.

Parece-me por demais evidente que esse é o resultado colhido das falas mansas para com os sibaritas e das atitudes dessacralizantes como a vista pelo mundo durante a última Quinta-Feira Santa (aqui).

Por que o Papa Francisco não consegue dar uma entrevista claramente ortodoxa como esta aqui?

Vamos rezar para que o Papa Francisco perceba logo que uma religião com Misericórdia mas sem Justiça não vai longe por ser perneta.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O Cardeal Kasper é um herege? Sim, responde o Cardeal Brandmüller

Cardeal Walter Brandmüller, um bastião de catolicidade
O Cardeal Kasper é provavelmente o maior proponente da modificação do ensino tradicional da Igreja no sentido de que aqueles católicos divorciados e recasados no civil possam novamente comungar. Essa proposta colide frontalmente com o que sempre se ensinou na Igreja e assim é legítimo que até mesmo um leigo poss perguntar-se:

Seria então o Cardeal Kasper um herege?

Embora existam motivos para que um leigo faça essa pergunta, existem igualmente fortes motivos para que não seja um leigo a respondê-la, principalmente pois se trata de pessoas a quem devemos respeito, obediência e amor.

Contudo, esta semana o Cardeal Brandmüller, um dos maiores teólogos católicos vivos, concedeu uma entrevista ao Life Site News, um serviço de notícias pró-vida norte-americano, onde responde afirmativamente a essa pergunta. É verdade que o Cardeal Brandmüller não cita Kasper pelo nome. Mas sua resposta foi específica sobre a comunhão dos recasados e nela são citados "hereges purpurados". Nas palavras do eminente cardeal:

"Uma mudança no ensino, do dogma, é impensável. Quem apesar disso conscientemente o faz, ou insistentemente pede que seja feito, é um herege - ainda que use a Púrpura Romana".

Leia a entrevista toda aqui.

Por que a arte moderna é tão ruim?


sexta-feira, 10 de abril de 2015

A Crítica de Platão à Poesia na República

A República é um dos diálogos de Platão mais conhecidos e um dos mais interessantes e maior influência na história ocidental. O seu último capítulo, o Livro X, é conhecido pela devastadora crítica que Platão, através da boca de Sócrates, faz à poesia e às artes em geral. Deve-se dizer que essa crítica é muito mais severa aí, no Livro X, do que em outros pontos da República e em outros diálogos, como o Íon, o que não deixa de ser paradoxal num filósofo que escreve livros como peças de teatro. Esses fatores, além de questões de estilo e profundidade, levaram alguns estudiosos a hipotetizar que o Livro X talvez seja uma adição espúria de um discípulo menos talentoso de Platão. 

Para se compreender a raiz das críticas de Platão à arte é necessário antes relembrar sua teoria das Formas. Para Platão, aquilo que nós comumente chamamos de realidade, a minha mesa, meu computador, etc., são na verdade aparências que participam das suas respectivas Ideias ou Formas. A verdadeira realidade, para Platão, consiste no Mundo das Formas/Ideias, onde há uma ideia de Mesa (isto é: a mesa perfeita), uma ideia de computador (isto é: o computador perfeito) etc. Todos os objetos no nosso mundo não passam de pálidas cópias dessas Formas perfeitas.

Consequentemente, o pássaro que vejo de minha janela é apenas uma cópia da Ideia de pássaro que existe realmente no Mundo das Ideias. Se eu fizer um desenho ou pintura desse pássaro, por mais bonito que seja, estarei apenas fazendo uma cópia da cópia, uma mera imitação, uma cópia em terceiro grau. Platão talvez conceda alguma utilidade prática ao meu desenho, mas ele ignora ou desconsidera o aspecto criativo e lúdico da arte. Ele não vê o artista como alguém capaz de destacar em sua obra aspectos inexistentes ou ocultos no objeto retratado, fazendo com que o observador perceba e sinta coisas que normalmente passariam despercebidas. Como consequência de sua metafísica, Platão é extremamente severo com pintores em particular. Um carpinteiro, ao fazer um objeto, copia uma Ideia (a Forma de uma cadeira, p.e.) transferindo-a para a madeira. Já um artista que desenhe uma cadeira, em perspectiva, com jogo de luz e sombra, é um ilusionista, um produtor de simulacros, um falsário, pois faz em duas dimensões um objeto que obviamente tem três*.

A crítica de Platão tem também um componente ético-psicológico. Em seu Livro X da República, Platão divide a alma em duas partes: a superior responsável pelo entendimento/julgamento e a inferior responsável pelas emoções/desejos. Num homem sábio, a parte superior da alma deve dominar a inferior, agindo sempre de forma lúcida e racional. No entanto, as manifestações artísticas (o teatro, a poesia etc.) têm o poder de estimular a parte inferior da alma, enfraquecendo o domínio da razão sobre ela. Desse modo, até mesmo um homem normalmente ponderado, se dado a assistir comédias, por exemplo, perderá após algum tempo a noção do ridículo e passará agir e falar comicamente. Um homem, habitualmente corajoso, mas que ceda ao prazer de ouvir poemas melosos e sentimentais terá sua parte inferior da alma fortalecida a tal ponto que em breve será a emoção que o governará. De fato, nesse ponto é difícil negar que Platão tenha certa razão. Há sem dúvida uma interdependência entre as potências da alma e é estranho imaginar, por exemplo, uma pessoa pacífica mas que assiste frequentemente a filmes violentos. Por isso que, na cidade idealizada por Platão, apenas obras sacras e elogios aos heróis devem ser permitidos.

A impressão que se tem ao ler as críticas de Platão à arte é que ele tem uma noção um tanto simplista e utilitarista do que ela seja. No entanto, deve-se ponderar que as críticas de Platão à arte talvez tenham um endereço específico em seu momento histórico. A República também pode ser lida como um elogio à filosofia e à sua importância na educação e formação dos cidadãos. Ora, na Grécia de Platão, era comum considerar-se a poesia e o teatro, não apenas como entretenimento e expressão de sentimentos, mas também como fonte segura de educação. Homero não era visto apenas como um talentoso poeta. Ele e outros poetas eram considerados autoridades em assuntos como moral, leis, guerra, honra etc. Possivelmente, portanto, o objetivo maior de Platão não era tanto banir os artistas da cidade mas sim coloca-los em seu devido lugar.

*Embora um artista pudesse perguntar a Platão porque há uma Ideia de Cadeira, mas não há uma Ideia de Desenho. Ou por que há uma Ideia de Coragem, mas não há uma Ideia de Arte?