Por que ser contra a Revolução?

Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da ordem. E por ordem entendemos, a paz de Cristo no Reino de Cristo. Ou seja, a Civilização Cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, anti-igualitária e anti-liberal.
Dr. Plínio Corrêa de Oliveira

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

“Educação após Auschwitz” e Autonomia em Adorno

“Educação após Auschwitz” é o título de uma palestra divulgada originalmente pelo filósofo alemão Teodoro W. Adorno (1903-1969) num programa de rádio em 1967. O tema central dessa palestra é a educação. Sua tese é de que a principal função da educação é evitar que tragédias como o holocausto se repitam. Embora cite o genocídio armênio de 1915, é sintomático que, como intelectual marxista, Adorno evite mencionar os massacres perpetrados na URSS em nome do marxismo, que sobrepujaram quantitativamente o holocausto dos judeus e já eram conhecidos na época em que escreveu.
Contudo, é obviamente impossível não concordar com a tese central de Adorno. O objetivo central do processo educacional, começando em casa e estendendo-se à universidade, deve ser o de promover a civilidade do indivíduo; desenvolver a autonomia, destacando a responsabilidade moral que cada um tem com as decisões que tomar. Adorno não faz sugestões de métodos pedagógicos, mas ele está absolutamente correto ao apontar que a excelência de uma educação técnico-científica não é garantia de civilidade. Pelo contrário, uma educação que priorize excessivamente a técnica pode gerar indivíduos empaticamente insensíveis e mais propensos a alguma sóciopatia. Adorno também está certíssimo ao apontar o culto à força física e à violência como geradores de uma mentalidade tendente a soluções extremistas.
O aspecto mais interessante, porém, desta palestra é a descrição da gênese da barbárie do holocausto oferecida pelo autor. Para Adorno, a barbárie se encontra no próprio princípio civilizatório moderno. A onipresença de controles exógenos e a quebra das estruturas sociais tradicionais, gerada pela modernidade, cria um mal-estar que frequentemente explode em fanatismo e extremismo. É na massa de desajustados, um subproduto inevitável da modernidade, que as ideologias extremas recrutam seus adeptos.

Resistir à tendência herética, por Roberto de Mattei

Traduzido por Hélio Dias Vianna.
Visto primeiro no Blog da Família

Eliminado o sentido do pecado; abolidos os conceitos de bem e de mal; suprimida a lei natural; arquivada qualquer referência a valores positivos como virgindade e castidade. Com o relatório apresentado em 13 de outubro de 2014 no Sínodo sobre a família pelo Cardeal Péter Erdö, a revolução sexual irrompe oficialmente na Igreja, com consequências devastadoras para as almas e a sociedade. 
Relatio post disceptationem elaborada pelo Cardeal Erdö é o relatório resumitivo da primeira semana de trabalhos do Sínodo e aquele que orienta as suas conclusões. A primeira parte do documento pretende impor, com uma linguagem derivada do pior ‘Sessenta e oito’ [NdT: Revolução anarquista da Sorbonne, de maio de 1968], a “mudança antropológico-cultural” da sociedade como um “desafio” para a Igreja. Diante de um quadro que da poligamia e do “casamento por etapas” africanos chega à “prática da convivência” da sociedade ocidental, o relatório encontra a existência de “um difuso desejo de família”. Nenhum elemento de avaliação moral está presente. À ameaça do individualismo e do egoísmo individualista o texto contrapõe o aspecto positivo da “relacionalidade”, considerada um bem em si, sobretudo quando tende a transformar-se em relação estável (nos. 9-10).
A Igreja renuncia a emitir juízos de valor para limitar-se a “dizer uma palavra de esperança e de sentido” (no. 11). Afirma-se em seguida um novo surpreendente princípio moral, a “lei da gradualidade”, que permite colher os elementos positivos em todas as situações até agora definidas como pecadoras pela Igreja. O mal e o pecado propriamente não existem. Existem apenas “formas imperfeitas de bem” (no. 18), segundo uma doutrina dos “graus de comunhão” atribuída ao Concílio Vaticano II. “Tornando-se portanto necessário um discernimento espiritual em relação às coabitações, aos matrimônios civis e aos divorciados recasados, compete à Igreja reconhecer que a semente do Verbo se espalhou além das fronteiras visíveis e sacramentais” (no. 20).
O problema dos divorciados recasados é um pretexto para fazer passar um princípio que mina dois mil anos de moral e de fé católica. Após a Gaudium et Spes“a Igreja se volta com respeito para aqueles que participam em sua vida de modo incompleto e imperfeito, prezando mais os valores positivos que guardam, do que as limitações e as faltas” (ibidem). Isso significa que cai todo o tipo de condenação moral, porque qualquer pecado passa a constituir uma forma imperfeita de bem, um modo incompleto de participar na vida da Igreja. “Nesse sentido, uma nova dimensão da pastoral familiar hodierna consiste em entender a realidade dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças, também das coabitações” (no. 22).
E isso sobretudo “quando a união alcança uma notória estabilidade através de um vínculo público, e caracteriza-se por profunda afeição, de responsabilidade em relação à prole, da capacidade de resistir nas provas” (ibid). Com isso fica de cabeça para baixo a doutrina da Igreja segundo a qual a estabilização no pecado através do casamento civil constitui um pecado mais grave do que a união sexual ocasional e passageira, porque esta última permite com mais facilidade o retorno ao caminho certo. “Uma sensibilidade nova na pastoral hodierna consiste em entender a realidade positiva dos casamentos civis e, feitas as devidas diferenças, também das coabitações” (no. 36).
A nova pastoral impõe, portanto, o silêncio sobre o mal, renunciando à conversão do pecador e aceitando o status quo como irreversível. São estas que o relatório chama de “opções pastorais corajosas” (ponto 40). A coragem, ao que parece, não está em opor-se ao mal, mas em adaptar-se a ele. As passagens dedicadas ao acolhimento às pessoas homossexuais são as que pareceriam mais escandalosas, mas constituem a consequência lógica dos princípios acima expostos. Até o homem da rua compreende que se ao divorciado recasado é possível aproximar-se dos sacramentos, tudo é permitido, a começar pelo pseudo casamento homossexual.
Nunca, realmente nunca, sublinha Marco Politi no “Il Fatto” de 14 de outubro, ele tinha lido, em um documento oficial produzido pela hierarquia eclesiástica, uma frase do gênero“As pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã.” Seguida de uma pergunta dirigida aos bispos do mundo inteiro:“estamos em condições de acolher essas pessoas, garantindo-lhes um espaço de fraternidade em nossas comunidades?” (no. 50). Embora não equiparando as uniões entre pessoas do mesmo sexo ao casamento entre homem e mulher, a Igreja se propõe“elaborar maneiras realistas de crescimento afetivo e de maturidade humana e evangélica integrando a dimensão sexual” (no. 51). “Sem negar os problemas morais conexos às uniões homossexuais, nota-se que há casos em que o suporte mútuo com vistas ao sacrifício constitui um apoio precioso para a vida dos parceiros” (no. 52).
Nenhuma objeção de princípio vem expressa em relação à adoção de crianças por duplas homossexuais: aqui limita-se a dizer que “a Igreja tem uma atenção especial para com as crianças que vivem com casais do mesmo sexo, insistindo que em primeiro lugar são colocados sempre as exigências e os direitos dos pequenos” (ibid). Na conferência de imprensa de apresentação, Mons. Bruno Forte chegou a auspiciar “uma codificação dos direitos que podem ser assegurados às pessoas que vivem em uniões homossexuais”.
As palavras fulminantes de São Paulo segundo as quais “nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os salteadores hão de herdar o reino de Deus” (I Carta aos Coríntios, 6, 9) ficam esvaziadas de sentido para os malabaristas da nova moralidade pansexual. Para eles é necessário entender a realidade positiva daquele que foi chamado de pecado que clama ao Céu por vingança (Catecismo de São Pio X). A “moral da proibição” deve ser substituída pela do diálogo e da misericórdia, e o slogan de 68, “é proibido proibir”, é atualizado pela fórmula pastoral segundo a qual “nada se pode condenar”. 
Não caem apenas dois mandamentos, o sexto e o nono, que proíbem pensamentos e atos impuros fora do casamento, mas desaparece a ideia de uma ordem natural e divina objetiva sintetizada no Decálogo. Não existem atos intrinsecamente ilícitos, verdades e valores morais pelos quais se deve estar disposto a dar até a vida, como os define a encíclica Veritatis Splendor (no. 51 e no. 94). No banco dos réus não estão apenas a Veritatis Splendor e os recentes pronunciamentos da Congregação para a Doutrina da Fé em matéria de moralidade sexual, mas o próprio Concílio de Trento que formulou dogmaticamente a natureza dos sete sacramentos, a começar pela Eucaristia e pelo Matrimônio.
Tudo começa em outubro de 2013, quando o Papa Francisco, após ter anunciado a convocação dos dois sínodos sobre a família, o ordinário e o extraordinário, promove um “Questionário” dirigido aos bispos de todo o mundo. O uso enganoso de pesquisas e questionários é bem conhecido. A opinião pública julga que uma escolha é justa quando feita pela maioria das pessoas. E as sondagens atribuem a essa maioria, opiniões já predeterminadas pelos manipuladores do consenso. O questionário desejado pelo Papa Francisco abordou os temas mais prementes, da contracepção à comunhão aos divorciados, das uniões de fato aos casamentos entre homossexuais, mais com o objetivo de orientação que de informação.
A primeira resposta, publicada em 3 de fevereiro pela Conferência Episcopal alemã (“Il Regno Documenti”, 5 [2014], pp. 162-172), foi claramente anunciada para condicionar a preparação do Sínodo e sobretudo para oferecer ao cardeal Kasper a base sociológica de que precisava para a preleção ao Consistório que o Papa Francisco lhe havia confiado. O que de fato emergiu foi a recusa explícita dos católicos alemães “às pretensões da Igreja sobre as relações sexuais pré-maritais, a homossexualidade, os divorciados recasados e o controle da natalidade” (p. 163). “As respostas recebidas das dioceses — dizia-se ainda — deixam entrever quão grande é a distância entre os batizados e a doutrina oficial, sobretudo no que diz respeito à convivência pré-matrimonial, ao controle de natalidade e à homossexualidade” (p. 172).
Esta distância não vinha apresentada como uma separação dos católicos em relação ao Magistério da Igreja, mas como uma incapacidade da Igreja em compreender e secundar o curso dos tempos. O cardeal Kasper, em sua exposição ao Consistório de 20 de fevereiro, definirá tal distância de um “abismo” que a Igreja deveria ter preenchido adaptando-se à prática da imoralidade.
De acordo com um dos seguidores do cardeal Kasper, o sacerdote genovês João Cereti, conhecido por um estudo tendencioso sobre o divórcio na Igreja primitiva, o questionário foi promovido pelo Papa Francisco, a fim de evitar que o debate ocorresse “em ambientes confinados” (“Il Regno-Attualità” 6 [3014], p. 158). Mas se é verdade que o Papa desejava que a discussão se desenvolvesse de forma transparente, não se compreende a decisão de realizar o Consistório extraordinário de fevereiro e, em seguida, o Sínodo de outubro a portas fechadas. O único texto de que se teve conhecimento, graças ao “Foglio”, foi a exposição do Cardeal Kasper. Em seguida baixou o silêncio sobre os trabalhos.
Em seu Diário do Concílio, em 10 de novembro de 1962, o Padre Chenu anota estas palavras do padre Giuseppe Dossetti, um dos principais estrategistas da frente progressista“A batalha eficaz se joga no regulamento. É sempre por esta via que eu ganhei”. Nas assembleias, o processo decisório não pertence à maioria, mas à minoria que controla o regulamento. Não existe democracia na sociedade política nem na religiosa. A democracia na Igreja, observou o filósofo Marcel De Corte, é cesarismo eclesiástico, o pior de todos os regimes. No processo sinodal em curso a existência deste cesarismo eclesiástico é demonstrada pela pesada atmosfera de censura que o acompanhou até hoje.
Os vaticanistas mais cuidadosos, como Sandro Magister e Marco Tosatti, sublinharam que, ao contrário dos Sínodos precedentes, neste foi proibido aos padres sinodais de intervir. Magister, recordando a distinção feita por Bento XVI entre o Vaticano II “real” e o “virtual” que se lhe sobrepôs, falou de uma “divisão entre sínodo real e sínodo virtual, este último construído pela mídia com a sistemática ênfase às coisas caras ao espírito do tempo”. Hoje, no entanto, são os próprios textos do Sínodo que se impõem com a sua força explosiva, sem a possibilidade de deturpações pelos meios de comunicação, que se têm mostrado até mesmo espantados com o poder explosivo do Relatório do cardeal Erdö.
Naturalmente este documento não tem qualquer valor magisterial. É também lícito duvidar que ele reflita o verdadeiro pensamento dos Padres sinodais. Contudo, aRelatio prenuncia a Relatio Synodi, o documento final da assembleia dos bispos.
O verdadeiro problema que agora se porá é o da resistência, anunciado no livroPermanere nella Verità di Cristo [Permanecer na Verdade de Cristo], dos cardeais Brandmüller, Burke, Caffarra, De Paolis e Müller (Cantagalli 2014). O cardeal Burke, em sua entrevista com Alessandro Gnocchi no “Foglio” de 14 de outubro, afirmou que eventuais mudanças na doutrina ou na prática da Igreja pelo Papa seriam inaceitáveis,“porque o Papa é o Vigário de Cristo na Terra e, por conseguinte, o primeiro servo da verdade da fé. Conhecendo o ensinamento de Cristo, não vejo como se possa desviar daquele ensinamento com uma declaração doutrinária ou com uma prática pastoral que ignore a verdade”.
Os bispos e os cardeais, até mais do que os simples fiéis, encontram-se diante de um terrível drama da consciência, muito mais grave do que aquele que tiveram de enfrentar no século XVI os mártires ingleses. Com efeito, tratava-se então de desobedecer à suprema autoridade civil, o rei Henrique VIII, que por um divórcio abriu o cisma com a Igreja Romana, enquanto hoje a resistência é feita à suprema autoridade religiosa, caso esta se desvie do ensinamento perene da Igreja.
E quem é chamado a resistir não são católicos desobedientes ou dissidentes, mas precisamente aqueles que mais profundamente veneram a instituição do Papado. Outrora, quem resistisse era entregue ao braço secular, que o destinava à decapitação ou ao esquartejamento. O braço secular contemporâneo aplica o linchamento moral, através da pressão psicológica exercida pela mídia sobre a opinião pública.
O resultado é muitas vezes o colapso físico e mental das vítimas, a crise de identidade, a perda da vocação e da fé, a menos que se seja capaz de exercitar, com o auxílio da graça, a virtude heroica da fortaleza. Resistir significa, em última análise, reafirmar a total coerência da própria vida com a Verdade imutável de Jesus Cristo, invertendo o argumento dos que hoje pretendem dissolver a eternidade doVerum na precariedade do quotidiano.




















quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A descanonização de São João Batista

Vi primeiro no blog Fratres in Unum.

A principal queixa contra o dito Baptista prende-se com a sua ausência de sentido pastoral e a sua falta de misericórdia para com o rei Herodes Antipas, a quem acusou de viver em adultério.

Por Pe.  – Observador: Graças à grande trapalhada informática com o Citius, veio ter ao meu computador, procedente do Supremo Tribunal de Justiça do Céu, uma cópia da acção de descanonização de São João Baptista, intentada por alguns católicos, que se fizeram representar pelo seu advogado. Alega o causídico que o dito João, filho de Zacarias e de Isabel, foi precipitadamente elevado às honras dos altares e que, à luz da misericórdia pastoral, recentemente descoberta pelos referidos fiéis, é muito duvidosa a sua santidade.
A verdade é que a dita mãe do referido João, Isabel, era prima de Maria e, portanto, o filho desta, Jesus, era parente próximo do Baptista, o que indicia favorecimento na sua canonização, cujo processo, por sinal, não consta nos arquivos da congregação para as causas dos santos. Também se teme que o alegado santo tenha sido ilicitamente beneficiado pelo facto de dois dos seus discípulos, André e João, terem depois seguido Cristo (tráfico de influências?). Por outro lado, não se conhece nenhum milagre, comprovado científica e canonicamente, que seja devido à sua intercessão. Acresce o facto de viver nas dunas, de se cobrir com peles de animais (quiçá de espécies protegidas), comer gafanhotos (que, desde as pragas do Egipto, estão em vias extinção) e de se alimentar de mel silvestre (produto não autorizado pela ASAE), o que indicia comportamentos anti-ecológicos e, em consequência, dignos de grave censura social e eclesial.
Contudo, a principal queixa contra o dito Baptista prende-se com a sua ausência de sentido pastoral e a sua falta de misericórdia para com o rei Herodes Antipas, a quem, publicamente, acusou de viver em adultério com a sua sobrinha, Herodíade, mulher de seu irmão Filipe e mãe de Salomé. Ainda que os autos provem ser verdadeira essa convivência marital, é absolutamente lamentável que, em vez de acolher misericordiosamente o simpático governante, João o tenha condenado eticamente, incorrendo assim na santa ira de Herodíade. Ora, numa perspectiva mais inclusiva e gradual, não só se deveria ter abstido de tais pronunciamentos moralistas, como deveria ter participado misericordiosamente no banquete natalício de Herodes Antipas, segundo a famosa tese que afirma que nenhum convidado para uma ceia pode ser legitimamente impedido de nela comer.
Embora os exegetas discutam se este princípio teológico-gastronómico, muito em voga em certos jornais, já constava nas tábuas da Lei, dadas por Deus a Moisés, ou se decorre de algum sermão de Santo Agostinho, ou ainda se se encontra na Suma Teológica, ninguém duvida de que é de fé divina e católica.
Por outro lado, a união de Herodes com a cunhada era, indiscutivelmente, uma relação amorosa e, sendo a caridade a principal virtude cristã, deve prevalecer a atitude pastoral de valorizar esse amor, tendo também em conta o bem da jovem e bela Salomé, que de tão amorosa mãe e do seu extremoso consorte recebia, como bailarina, uma esmerada educação artística, que deve ser também estimulada.
Por último, a forma rude como o dito João tinha por costume dirigir-se às autoridades eclesiásticas, como os fariseus e os doutores da lei, não condiz com o estilo pastoral pós-conciliar, o qual, em vez de apelar à conversão, ou julgar, proibir ou condenar actos objectivamente contrários à doutrina cristã, acolhe, abençoa e louva todas as atitudes de quaisquer seres humanos.
Por tudo isto e o mais que fica por dizer, entendem os queixosos que a sentença não pode ser outra senão a da descanonização de João Baptista, correndo a cargo do demandado as custas processuais, sem hipótese de recurso nem apelo, excepto em sede de juízo final.
À margem, lê-se ainda nos autos: aconselha-se vivamente que seja também revisto o processo de um tal Tomás More, que se opôs ao divórcio de Henrique VIII e foi, por esse motivo, executado, sendo portanto igualmente suspeito de atitudes contrárias à misericórdia cristã. Recomenda-se ainda a abertura dos processos de canonização de Herodes Antipas, de Salomé e de Herodíade, padroeiros do amor livre, bem como de Henrique VIII, vítima do fundamentalismo católico. Assinado: o advogado do diabo, bastante procurador e representante dos referidos católicos*.
*Aviso à navegação: com este texto irónico não se pretende negar a prática da misericórdia em relação a todos os homens e, por maioria de razão, a todos os fiéis cristãos, quaisquer que sejam as suas circunstâncias pessoais e familiares, mas apenas recordar que a caridade pressupõe a justiça e que não há pior injustiça do que a de tratar todos por igual. O acolhimento misericordioso que a todos os cristãos, sem excepção, deve ser dispensado, não pode ser feito à custa da verdade moral objectiva, nem do propósito de conversão, que a Igreja a todos convida, como requisito necessário para a salvação.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Sínodo da Família e a Revolução da Sorbonne de Maio de 68

Paulo Roberto Campos

No dia 15 do corrente mês de outubro, “Il Foglio” [fac-símile ao lado], diário italiano especializado em temas relacionados com o Vaticano, publicou uma importante matéria do Prof. Roberto de Mattei sobre o Sínodo da Família — tema de especial atenção dos leitores deste blog, dedicado a tratar particularmente das questões que afetam a instituição familiar em nossos dias.

Conceituado historiador, professor de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, Roberto de Mattei publicou em 2010 o famoso livro O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita.

Na matéria para “Il Foglio”, ele analisa as afirmações contidas no documento de autoria do Cardeal húngaro Péter Erdö, relator do Sínodo da Família, as quais foram divulgadas pela mídia do mundo inteiro no dia 13 p.p.

Por exemplo, a de que “as pessoas homossexuais têm dons e qualidades para oferecer à comunidade cristã.” E ainda outras, que igualmente colidem com o ensinamento do magistério tradicional da Igreja, relativas à comunhão aos recasados, à nulidade de casamentos, ao divórcio, aos métodos contraceptivos, às relações extraconjugais, à adoção de filhos por duplas de homossexuais, etc.

Tais afirmações, que causaram muita perplexidade, confusão e escândalo em incontáveis almas católicas, tampouco coadunam com as admiráveis e inequívocas afirmações de São Paulo Apóstolo, em carta aos Coríntios (6,9): “Nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os salteadores hão de herdar o reino de Deus”. 

O renomado escritor italiano faz uma correlação entre o mencionado relatório e a revolução anárquica da Sorbonne, de maio de 1968, cujo lema era “É proibido proibir”. Ou seja, tudo é permitido, inclusive o pecado; nada é condenável, inclusive os atos imorais. 

Bem sabemos que o confuso e perplexitante relatório é um rascunho e não um documento final e oficial do Sínodo da Família. Contudo, não deixa de ser grave sua divulgação e de ser inaceitável seu conteúdo, pois contradiz a doutrina tradicional, indefectível e inalterável, da Igreja. Foi, aliás, o que declarou o líder da conferência dos bispos poloneses, o Cardeal Stanislaw Gadecki, que caracterizou o documento de “inaceitável”, pois “desvia dos ensinamentos da Igreja”.

Rezemos para que o documento final daquela assembleia (que se encerrará no próximo dia 19) seja INTEIRAMENTE conforme à imaculada doutrina sempre ensinada pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Um documento que não contenha concessões ao espírito do mundo neopagão dominado pela corrupção moral. Diante desse mundo, a nossa posição deve ser a de seguir o conselho de São Paulo Apóstolo: “Permanecei, pois, constantes, irmãos, e conservai as tradições que aprendestes, ou por nossas palavras, ou por nossa carta” (Segunda Epístola aos Tessalonicenses, 2, 15).

sábado, 18 de outubro de 2014

Te Deum Laudamos: o Sínodo

Louvado seja Deus eternamente que numa hora de trevas inspirou seus filhos diletos a levantarem-se e a defenderem sua bendita Igreja.
 O que sucedeu esta semana em Roma não é menos grave do que aconteceu em Rimini em 369, durante uma crise análoga. Nos livros de história da Igreja, haverá doravante uma página de honra para os Príncipes da Igreja, Burke, Muller e Pell, entre outros. Kasper, Marx, Schonborn, Forte, Baldisseri e outros carregarão para sempre a marca da vergonha.
Não devemos também deixar de mencionar o papel dos bispos africanos. Se é verdade que os principais heróis desta semana vieram das altas latitudes da fria Europa e do gélido midwest Americano, é também verdade que, como um todo, os cardeais e bispos africanos mostraram-se os mais fiéis à Igreja. Com as devidas exceções, europeus e americanos, quer do norte quer do sul, não souberam mostrar o mesmo zelo pela Fé que seus colegas africanos. Com o Ocidente devastado por heresias diversas e infiltrado pelos infiéis, é muito possível que a África ainda venha desempenhar papel semelhante ao da Irlanda após as invasões bárbaras. Pode ser que depois do colapso ocidental, sejam missionários vindos da África aqueles que irão re-cristianizar a Europa. Quem sabe?
Por agora, ficamos com a meia vitória da ortodoxia no Sínoda da (anti-)Família

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A leitura no mundo moderno

A leitura é tradicionalmente considerada como uma atividade nobre, quando não sacral. O ato de ler implicava uma reverência para com a palavra escrita, acompanhada do devido tempo para que o sentido das palavras fosse captado pela mente. Contribuía para isso um ambiente reservado para leitura, isento de distrações, em casa e nos locais de trabalho e certos hábitos, como, na antiguidade, o de ler em voz alta para si mesmo. Não por acaso, Logos e Verbo são sinonímias clássicas de Deus.
Esses fatores faziam com que o leitor entrasse na leitura. Não era o leitor ávido que devorava o livro; era o livro que engolia o seu leitor. Hoje em dia, com o advento da “sociedade excitada”, são pouquíssimos aqueles se dispõem a tal estilo de leitura. Conforme narrado por muitos professores, poucos alunos, mesmo no nível universitário, têm paciência e disposição para ler, muito menos ainda para ler uma narrativa pausada e meditativa. O ritmo agitado e frenético com que os alunos se defrontam pela internet e pela televisão gera mentalidades cada vez mais necessitadas de estímulos e sensações. Um show, um vídeo ou uma propaganda que não provoque sensações físicas é varrida da memória poucos segundos após ser vista. Um texto que não provoque sensações físicas, que não faça correr a adrenalina, é deixado de lado logo após as primeiras páginas. Há um bombardeio crescente de imagens, cada vez mais excitantes, que tomam lugar da reflexão pausada. O que conta não é mais a capacidade de raciocinar, mas a de se emocionar. Isso tem inclusive reflexo nos métodos atuais de ensino. Cada vez mais os professores são estimulados a usar em suas aulas recursos audiovisuais atraentes e sofisticados para conseguir prender a atenção dos alunos, acostumados ao ritmo dos cliques da internet. Os cursinhos já estabeleceram a tendência: o professor, para ser bom, tem que ter o ritmo de um apresentador de auditório.
Essas talvez sejam algumas das causas da incapacidade de leitura dos brasileiros. Apesar de todos os esforços das últimas décadas, ainda temos baixíssimos índices de leitura. O brasileiro lê em média cerca de um livro por ano, incluindo aí os obrigatórios da escola.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ainda há bispos na Igreja!

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – Uma outra censura, e os Padres Sinodais se rebelam.
 
A Secretaria Geral do Sínodo havia anunciado sua decisão de não publicar os relatórios dos Circuli Minores.
O Cardeal Erdo tomou a palavra, tomando implicitamente distância do relatório que trazia sua assinatura, e dizendo que, se aquela “disceptatio” havia sido publicada, deveria-se publicar também a dos Circuli Minores, as Comissões.
A sua intervenção foi seguida por uma chuva de numerosas outras no mesmo tom, reforçada por aplausos trovejantes.
O Secretário do Sínodo, Cardeal Baldisseri, olhava para o Papa, como que a procura de conselho e luzes, e o Papa permanecia calado e sério.
Mudos também o sub-secretário do Sínodo, Fabene, Forte, Schönborn e Maradiaga [que trupe!].
Kasper não estava lá.